A VERDADE, A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O PODER DE INFLUENCIAR A OPINIÃO PÚBLICA

Quando a imprensa deixa de apenas informar e passa a disputar o controle da narrativa política, o cidadão precisa perguntar: quem está contando os fatos e quem está tentando determinar o que devemos pensar?


Por Charles Manga - Jornal Ativa On Line

Existe uma pergunta que todo brasileiro deveria fazer diante da televisão, dos portais de notícias e das redes sociais: estamos recebendo informações que nos permitem formar nossa própria opinião ou estamos sendo conduzidos a pensar de acordo com a interpretação de quem controla os meios de comunicação?
A pergunta é necessária em um país profundamente dividido pela política, onde a confiança nas instituições, nos políticos, no Judiciário e nos veículos de comunicação é constantemente colocada à prova. A imprensa tem uma missão fundamental em qualquer democracia: investigar, informar, fiscalizar o poder e oferecer ao cidadão condições de compreender os acontecimentos. Mas essa missão exige independência, responsabilidade, equilíbrio e compromisso com os fatos.
Como jornalista, considero legítimo questionar se os grandes veículos brasileiros oferecem espaço adequado para diferentes visões políticas ou se, em determinados assuntos, acabam privilegiando interpretações semelhantes, deixando em segundo plano argumentos que também merecem ser examinados.
Globo, Band e SBT: nenhuma emissora deve estar acima da crítica
Empresas como Globo, Band e SBT possuem grande alcance e influência sobre a formação da opinião pública brasileira. Justamente por isso, precisam ser cobradas com rigor pela maneira como selecionam, apresentam e contextualizam as notícias. Não se trata de afirmar que todos os profissionais dessas emissoras mentem ou que todas as reportagens são tendenciosas. Trata-se de defender que nenhum veículo, por maior que seja sua audiência, pode estar imune ao questionamento público.
Uma reportagem pode apresentar informações verdadeiras e, ainda assim, transmitir uma impressão incompleta quando omite um contexto relevante, destaca apenas os argumentos de um lado ou apresenta uma interpretação controversa como se fosse um fato incontestável. Se um político de direita comete um erro, a imprensa tem o dever de noticiá-lo. Se um político de esquerda comete o mesmo erro, o dever é exatamente o mesmo.
Não pode haver uma régua para aliados e outra para adversários
A pergunta que deveria orientar o jornalismo não é se o personagem pertence à esquerda, à direita ou ao centro. É outra: o que aconteceu, quais são as provas, quem foi ouvido e o que ainda precisa ser esclarecido?
Essa é a diferença entre fiscalizar o poder e participar de uma disputa política.
Flávio Bolsonaro: chamar de foragido sem mandado de prisão seria distorcer os fatos?
A cobertura dos acontecimentos envolvendo Flávio Bolsonaro exige atenção aos detalhes jurídicos. Em meio à disputa política, é fundamental distinguir uma investigação, o descumprimento de uma determinação judicial e a condição jurídica de uma pessoa considerada foragida. Em 28 de outubro de 2026, a Polícia Federal informou que Flávio Bolsonaro não era considerado foragido da Justiça e que não havia mandado de prisão contra ele naquele momento.
A corporação, entretanto, também informou que investigava as circunstâncias do descumprimento de determinações judiciais relacionadas aos passaportes e à proibição de deixar o país. Esses dois aspectos precisam ser apresentados ao público. Não seria correto omitir a existência das determinações judiciais, assim como não seria correto afirmar que havia um mandado de prisão contra o senador quando a própria Polícia Federal informou que não havia.
Fonte: Agência Brasil — PF investiga circunstâncias da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil.
https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-10/pf-investiga-circunstancias-da-fuga-de-flavio-bolsonaro-do-brasil
É justamente nesse ponto que a imprensa precisa demonstrar responsabilidade.
Por que não apresentar a informação completa? Por que não explicar, de maneira clara, a diferença entre estar sob investigação, descumprir uma decisão judicial e ser considerado foragido?
O cidadão tem o direito de conhecer todos esses detalhes antes de formar sua opinião
É possível criticar Flávio Bolsonaro, questionar suas decisões e cobrar explicações sobre suas atitudes. Mas uma coisa é a crítica política; outra é transmitir ao público uma situação jurídica diferente daquela oficialmente informada pelas autoridades. O jornalismo não pode escolher apenas a parte de um fato que favorece a interpretação desejada. A informação precisa ser completa, contextualizada e verificável.
E aqui fica uma pergunta às grandes redações: quando uma informação favorece o adversário político, ela recebe o mesmo destaque que receberia se favorecesse alguém de sua preferência editorial? Essa pergunta merece resposta não apenas da Globo, mas de todas as emissoras e empresas de comunicação brasileiras.
O uso da palavra “fascista” e o perigo de transformar a notícia em rótulo político


Outro ponto que merece reflexão é o uso de palavras como “fascista” na cobertura política.
O fascismo é um conceito histórico e político específico. Não deveria ser utilizado indiscriminadamente como insulto contra qualquer pessoa que pense diferente, defenda posições conservadoras, apoie determinado candidato ou discorde de uma interpretação jornalística. Se apresentadores, comentaristas ou participantes de debates utilizam esse termo para caracterizar adversários políticos, é legítimo perguntar quais fatos e critérios sustentam essa classificação.
A crítica é ainda mais necessária quando um rótulo dessa natureza aparece sem explicação suficiente, como se a palavra, por si só, encerrasse o debate e dispensasse a apresentação de argumentos.
Uma emissora pode transmitir uma opinião política. O problema surge quando o público não consegue distinguir claramente a opinião do profissional dos fatos efetivamente demonstrados. No caso da TV Globo, assim como no de qualquer outro veículo, é necessário examinar as declarações específicas, o contexto e a maneira como foram apresentadas. Não basta atribuir à emissora uma posição sem identificar o conteúdo que sustenta essa conclusão.
Mas a questão central permanece: quando um jornalista utiliza um rótulo político para desqualificar alguém, está esclarecendo os fatos ou influenciando a percepção do telespectador?
A imprensa precisa responder a essa pergunta com transparência.
Se existe evidência de uma conduta autoritária, ela deve ser apresentada. Se existe uma declaração que merece crítica, ela deve ser reproduzida no contexto correto. Se há divergência ideológica, ela deve ser explicada. O que não deveria acontecer é substituir a argumentação por palavras que provocam rejeição imediata e transformam o debate público em uma disputa de rótulos.
E essa cobrança vale para a Globo, para a Band, para o SBT e para todos os veículos de comunicação, independentemente da orientação editorial.
A liberdade de imprensa protege o direito de criticar. Mas a credibilidade jornalística depende de demonstrar por que determinada crítica é justificada.
A família Bolsonaro e o direito de não ser condenada pela opinião pública antes dos fatos
A família Bolsonaro tornou-se um dos principais focos de disputa na política brasileira. Seus integrantes são alvo de críticas, investigações, processos judiciais e intensas discussões públicas.
Tudo isso pode e deve ser noticiado, desde que haja rigor na apresentação dos fatos.
O problema começa quando a crítica política se transforma em condenação antecipada, quando acusações são apresentadas sem a devida contextualização ou quando o público é levado a acreditar que uma pessoa já foi considerada culpada antes da conclusão de um processo.
Nenhum sobrenome deve funcionar como proteção contra investigações. Mas nenhum sobrenome deve servir como justificativa para abandonar a presunção de inocência, o direito de defesa e o respeito à dignidade humana.
O jornalismo precisa ter coragem para investigar os poderosos, inclusive aqueles com os quais seus profissionais concordam politicamente. E precisa ter a mesma coragem para reconhecer quando uma acusação não se sustenta ou quando uma informação divulgada inicialmente precisa ser corrigida. Não existe jornalismo independente quando a conclusão vem antes da investigação.
8 de janeiro: justiça individual, provas e responsabilidade
Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília, continuam provocando debates sobre democracia, responsabilização criminal e garantias constitucionais. É necessário reconhecer a gravidade dos ataques às instituições. Também é necessário exigir que a responsabilização de cada pessoa seja baseada em provas, na conduta individual e no devido processo legal.
Não é correto presumir que todos os envolvidos tiveram exatamente a mesma participação. Tampouco é correto afirmar, sem análise individual dos processos, que a maioria era inocente. Essa conclusão exige evidências que sustentem a afirmação. Cada caso precisa ser examinado de acordo com as provas, a participação atribuída ao acusado, os argumentos da defesa e os fundamentos da decisão judicial.
A pergunta que precisa permanecer viva é: cada acusado teve sua conduta examinada individualmente? As provas foram apresentadas e contestadas? A defesa teve condições efetivas de atuar? As penas são proporcionais às condutas reconhecidas judicialmente? Questionar esses pontos não significa defender invasões, depredações ou tentativas de ruptura institucional. Significa defender que a justiça seja aplicada com critérios claros, independentemente da posição política dos envolvidos.
Também é necessário cuidado ao falar sobre mortes, doenças e sofrimento de pessoas relacionadas aos acontecimentos. Cada caso precisa ser apurado e contextualizado. A dor humana não pode ser transformada em instrumento de propaganda por nenhum lado. Se a imprensa defende a democracia, deve defender também o direito de questionar decisões e cobrar transparência.
A carta de Flávio Bolsonaro e o direito de discordar
A carta divulgada por Flávio Bolsonaro em outubro de 2026 provocou controvérsia política. O documento apresentou críticas às instituições brasileiras, questionamentos sobre o cenário político e alegações relacionadas ao processo eleitoral. Essas alegações devem ser examinadas com rigor, e afirmações sobre fraude eleitoral exigem evidências verificáveis. A liberdade de expressão não transforma automaticamente uma declaração em verdade.
Mas existe uma questão que precisa ser discutida sem paixões: uma pessoa tem o direito de expressar sua insatisfação, criticar instituições e manifestar discordância política?
Sim. A liberdade de expressão é uma garantia constitucional.
Isso não significa que toda afirmação feita em nome dessa liberdade seja verdadeira, nem que acusações sem provas devam ser aceitas sem questionamento. O direito de falar não elimina a responsabilidade pelo que se afirma. Da mesma maneira, o dever de informar não concede à imprensa licença para ridicularizar, desumanizar ou apresentar interpretações contestáveis como se fossem verdades definitivas.
A carta pode ser criticada, suas alegações podem ser confrontadas com dados oficiais e suas contradições podem ser apontadas. O que não deve acontecer é substituir a análise dos argumentos por ataques pessoais ou transformar a discordância política em motivo para silenciar o debate.
O cidadão não precisa concordar com Flávio Bolsonaro. Também não precisa concordar com seus críticos. Precisa ter acesso a informações suficientes para formar sua própria opinião.
A liberdade de expressão vale também para quem pensa diferente do jornalista, do apresentador, do comentarista ou do proprietário de um grande veículo de comunicação.
A política brasileira e o espetáculo da indignação
O Brasil enfrenta escândalos, denúncias, investigações e conflitos entre lideranças políticas. Cada caso precisa ser apurado com seriedade, independentemente do partido ou do cargo ocupado pelos envolvidos.
Mas existe um risco quando a cobertura política passa a privilegiar o conflito permanente, os ataques pessoais e as declarações mais explosivas. A informação pode perder espaço para o espetáculo, enquanto os problemas concretos da população ficam em segundo plano.
O cidadão precisa saber o que acontece com a saúde pública, a educação, a segurança, o emprego, os recursos públicos e a qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado.
A cobertura política não deveria se limitar a descobrir quem atacou quem, qual declaração provocou a maior polêmica ou qual personagem conseguiu gerar mais repercussão nas redes sociais.
O jornalismo precisa perguntar quem será responsabilizado por eventuais irregularidades, quais documentos sustentam as acusações, quanto dinheiro público está envolvido e quais serão as consequências para a população.
Também é legítimo investigar a relação entre interesses econômicos e a atuação dos meios de comunicação. Mas acusações de que uma emissora favorece determinado grupo em troca de vantagens financeiras precisam ser sustentadas por evidências concretas, e não apenas por suspeitas ou divergências ideológicas.
A fiscalização deve alcançar todos: políticos, empresários, instituições e a própria imprensa.
A Bíblia e a responsabilidade com a verdade
Para quem reconhece os ensinamentos bíblicos como referência moral, a responsabilidade com a verdade não é apenas uma questão profissional. É também um compromisso ético.
Em João 8:32, está escrito:
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
O ensinamento convida à busca pela verdade, mas também exige humildade para reconhecer que nossas próprias convicções podem estar equivocadas.
Em Êxodo 20:16, o mandamento bíblico declara:
“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.”
A advertência é especialmente relevante quando uma notícia envolve acusações que podem destruir reputações, separar famílias ou colocar pessoas sob suspeita pública.
E Provérbios 18:13 ensina:
“Responder antes de ouvir é estultícia e vergonha.”
Esse princípio deveria orientar tanto os profissionais de comunicação quanto os cidadãos que compartilham notícias nas redes sociais. Antes de condenar alguém, é necessário ouvir, verificar e compreender. A Bíblia não deve ser utilizada como instrumento para justificar a perseguição a adversários políticos. Sua mensagem sobre a verdade deve servir de compromisso com a honestidade, a justiça e o respeito ao próximo, inclusive quando esse próximo pensa de maneira diferente.
Onde encontrar a verdade quando todos disputam o direito de defini-la?
Talvez o maior problema da comunicação contemporânea não seja simplesmente a existência de divergências políticas, mas a dificuldade de reconhecer os próprios erros. Quando um veículo publica uma informação incorreta, deve corrigi-la. Quando um político apresenta uma acusação sem provas, deve ser questionado. Quando uma autoridade comete um abuso, deve ser investigada. E quando um cidadão é acusado de um crime, deve ter seus direitos respeitados.
Nenhum lado possui o monopólio da verdade.
A esquerda não é dona da justiça. A direita não é dona da honestidade. As grandes emissoras não são donas da realidade. E as redes sociais, por mais que ofereçam espaço para vozes independentes, também podem espalhar boatos, manipulações e informações falsas.
Por isso, o brasileiro precisa desenvolver um olhar crítico sobre todas as fontes de informação, inclusive aquelas com as quais concorda. A imprensa tem o direito de criticar Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Lula, ministros do Supremo, governadores, deputados e senadores. O público tem o mesmo direito de questionar a imprensa. O que deve prevalecer é a apresentação de evidências, a transparência e o respeito às garantias constitucionais.
Não precisamos de jornalistas que concordem com todos os nossos pensamentos. Precisamos de jornalistas que tenham coragem de investigar os fatos, mesmo quando eles contrariam suas próprias convicções. Não precisamos de emissoras que protejam determinados políticos. Precisamos de veículos que fiscalizem todos com os mesmos critérios. E não precisamos de cidadãos que aceitem tudo o que ouvem. Precisamos de brasileiros dispostos a pensar, pesquisar, questionar e formar suas próprias conclusões.
A verdade não precisa de proteção partidária. Precisa de compromisso, provas e coragem
O jornalismo brasileiro ainda tem profissionais sérios, dedicados e comprometidos com o interesse público. Justamente por reconhecer a importância dessa profissão, é necessário cobrar daqueles que falham e valorizar aqueles que honram o ofício. A imprensa não pode exigir confiança apenas por causa de sua tradição, de sua audiência ou de seu poder econômico. A confiança precisa ser conquistada diariamente, por meio da apuração responsável, da independência editorial e do respeito à inteligência do cidadão.
Quando a notícia se transforma em arma política, todos perdem. Quando a opinião é apresentada como fato, a confiança se enfraquece. E quando a sociedade deixa de questionar quem informa, corre o risco de entregar a outros a responsabilidade de pensar por ela. O Brasil precisa de menos espetacularização e mais investigação; menos condenações precipitadas e mais provas; menos ataques pessoais e mais responsabilidade; menos disputa por narrativas e mais compromisso com os fatos.
Porque, no fim das contas, a pergunta permanece: quem vigia aqueles que têm o poder de informar milhões de brasileiros? A resposta deve ser a própria sociedade, por meio da liberdade, da fiscalização pública, do pensamento crítico e do compromisso inegociável com a verdade. A imprensa tem o direito de questionar o poder. O cidadão tem o direito de questionar a imprensa. E ambos têm o dever de respeitar os fatos.
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